Há um verso atribuído a Brecht — uso "atribuído" sempre que vejo nas redes mas nunca me detive para conferir a fonte original, de modo que é uma questão de responsabilidade intelectual — que pede que nunca nos conformemos com as coisas: "Isso é natural", "isso é assim mesmo". Esse conformismo é tudo o que o status quo quer: uma aceitação dócil da realidade. Os maiores absurdos introjetados como verdades universais sobre as quais nem vale a pena refletir; "isso é natural", afinal de contas.
Penso nisso diante da invasão estadunidense na Venezuela para o rapto de seu presidente eleito, Nicolás Maduro. Para mim não é natural. É uma clara violação da soberania de um membro das Nações Unidas, uma afronta explícita aos princípios do Direito Internacional. Não é natural; não devia sê-lo, pelo menos, porque quem consome a imprensa alinhada a Washington (isto é, rigorosamente toda a grande imprensa do Ocidente) tem a sensação de uma trivialidade incrível.
Vejam as manchetes. Delcy Rodríguez é a presidente que Trump "permitiu", "escolheu" para estar no governo. O navio petroleiro de bandeira russa é apreendido no Ártico porque um mandado da Justiça ianque assim "determina". E por aí vai. Como se Rodríguez não fosse a vice-presidente da Venezuela e naturalmente presidente interina em caso de vacância (e portanto Trump não "escolheu" coisa nenhuma), e como se a Justiça ianque tivesse jurisdição universal sobre o globo, respectivamente. Esses "detalhes" não aparecem — os valentes da imprensa do "mundo livre" reproduzem unilateralmente a narrativa dos senhores no Norte. Hegemonia gramsciana! Quem a exerce melhor do que o baronato midiático a serviço de Washington? A cobertura da guerra na Ucrânia nada mais é, até hoje, do que reprodução maciça dos briefings produzidos pela Otan.
É fácil culpar os jornalistas mas está claro: há ordens maiores, que vêm de cima. As ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante, nos ensinaram Marx e Engels. O jornalista é um empregado e como tal obedece ordens. Evidentemente isso é uma desculpa relativa — muitos têm espinha ereta e dignidade, ainda que paguem o preço. Como quer que seja o discurso hegemônico vai adentrando lares mundo afora, criando alguns monstros e desfazendo outros, claro, os sabores geopolíticos determinam qual é o vilão da vez. Hoje, Maduro. Amanhã...? O "Eixo do Mal" é qualquer coisa que contrarie o império.
Se o papel da imprensa como acobertadora das aventuras imperialistas salta aos olhos, que falar do Direito Internacional? Um exangue moribundo, impotente em seu leito de morte. Quatro séculos de refinamento, se colocarmos Grotius como marco, para ao fim e ao cabo um truculento como Trump simplesmente dizer — posso e acabou. Might is right. O que são as perorações dos juristas diante das botas da Delta Force? É uma realidade distópica que temos diante de nós.
Se o papel da imprensa como acobertadora das aventuras imperialistas salta aos olhos, que falar do Direito Internacional? Um exangue moribundo, impotente em seu leito de morte. Quatro séculos de refinamento, se colocarmos Grotius como marco, para ao fim e ao cabo um truculento como Trump simplesmente dizer — posso e acabou. Might is right. O que são as perorações dos juristas diante das botas da Delta Force? É uma realidade distópica que temos diante de nós.

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